
O Rival da Vinha
Capítulo Um
O leilão foi num salão de igreja com cadeira de plástico e um ventilador de teto que fazia barulho de avião. Marina levantou a placa pela última vez aos duzentos e dez mil e sentiu o suor descer pelas costas.
"Duzentos e trinta", disse a voz atrás dela.
Ela não precisou virar. Conhecia a dicção, com aquele jeito de terminar as palavras inteiras, que na serra é sinal de gente que estudou fora.
O martelo bateu. O talhão do Espigão, três hectares e meio de merlot plantado pelo avô dela em mil novecentos e setenta e um, virou propriedade da Vinícola Sanvitto.
Marina saiu antes de todo mundo e ficou no estacionamento, encostada na caminhonete, olhando o morro. Otávio Sanvitto apareceu cinco minutos depois com a pasta debaixo do braço.
"Marina."
"Duzentos e trinta."
"É o valor de mercado."
"É o valor que você tinha no bolso." Ela cruzou os braços. "Meu avô carregou pedra daquele talhão nas costas. Sabe o que tem enterrado na cabeceira, perto do eucalipto? Um cachorro chamado Tigre e uma garrafa de mil novecentos e oitenta e três."
Otávio olhou o morro. "A garrafa de oitenta e três é lenda. Meu pai contava a mesma história e dizia que estava do lado de lá da cerca."
"Seu pai contava muita coisa."
"Contava." Ele destrancou o carro. "Eu não vou arrancar o merlot, se é isso que te preocupa."
"Não me preocupa nada que você faça, Otávio. Me preocupa a existência da sua família neste vale desde mil novecentos e doze."
Ele parou com a mão na porta e riu, e ela odiou o fato de ser uma risada boa.
"Sabe qual é o teu problema?", ele disse.
"Ilumine."
"Você faz o melhor merlot do vale com equipamento de mil novecentos e oitenta e ainda acha que perder é uma questão moral."
Capítulo Dois
Elas se chamavam Casa Bertoldo e Vinícola Sanvitto, ficavam a novecentos metros uma da outra, e a estrada de chão que ligava as duas era a mesma desde os bisavós.
A Sanvitto tinha tanque de inox com controle de temperatura, um enólogo formado em Bordeaux (que era o próprio Otávio) e um restaurante com trinta e seis lugares. A Casa Bertoldo tinha nove hectares, uma prensa de mil novecentos e sessenta e oito que Marina consertava com peça de trator, e um rótulo que ganhava medalha em concurso todo ano e não vendia em lugar nenhum.
Em março, na semana da colheita, o tratorista dela quebrou o braço.
Ela estava no galpão às seis da manhã, xingando a caçamba, quando ouviu motor na estrada de chão. A caminhonete da Sanvitto parou no terreiro e desceram quatro homens de bota.
"Bom dia", disse Otávio.
"O que é isso?"
"São meus. Estão livres hoje e amanhã."
"Eu não pedi."
"Eu sei." Ele fechou a porta da caminhonete. "Se a tua uva ficar mais três dias no pé com esse calor, você perde o ano. Eu não quero ganhar assim."
Marina ficou com a chave de boca na mão, dividida entre duas vontades muito claras.
"Eu pago a diária deles."
"Paga."
"E você não entra no meu galpão."
"Combinado."
Ele entrou no galpão às quatro da tarde, porque a prensa travou e ele foi o único que sabia soltar sem quebrar o fuso. Ficou uma hora deitado embaixo do equipamento, com graxa até o cotovelo, discutindo com ela sobre pressão de prensagem.
"Você prensa forte demais", ele disse, de baixo.
"Eu prenso o que essa máquina deixa."
"A máquina deixa mais suave se você trocar essa gaxeta."
"E onde eu compro gaxeta de sessenta e oito, Otávio?"
Ele saiu de baixo da prensa, sentou no chão de concreto e limpou a mão no macacão.
"Eu tenho três no depósito", disse ele. "Meu avô guardou as peças quando desmontou a nossa. Estão lá desde noventa e quatro, numa caixa com o nome dele escrito a canetão."
Marina abriu a boca e não disse nada por uns segundos.
"Por que você guardaria isso?"
"Eu não guardei. Eu só não joguei fora." Ele levantou. "Tem diferença, e a diferença é o motivo de eu ainda morar neste vale."
Capítulo Três
Photo by Yusuf Miah via Pexels
Depois da colheita veio abril, que na serra é o mês mais bonito e o mais inútil, e os dois começaram a se encontrar sem chamar aquilo de nada.
Foi assim: ela precisava de gaxeta, ele precisava provar o merlot dela antes de assemblar o dele. Depois ela precisava de opinião sobre acidez, e ele precisava de alguém que dissesse a verdade sobre a safra dele sem medo do sobrenome.
Sentavam no muro de pedra que dividia as duas propriedades, com duas taças e uma lanterna, e discutiam.
"Isso está com madeira demais", ela disse, numa noite de maio.
"É o que o mercado quer."
"É o que o teu pai queria." Ela devolveu a taça. "O mercado não sabe o que quer, ele bebe o que a revista manda. Você tem barrica nova porque barrica nova custa caro e custar caro é o único argumento que a tua família sabe usar."
Otávio ficou em silêncio olhando o vinho.
"Isso foi ofensivo."
"Foi."
"E está certo."
Ela virou o rosto. Ele estava com os cotovelos nos joelhos, com a taça pendurada entre os dedos, e havia uma coisa cansada nele que ela nunca tinha visto de longe.
"Meu pai morreu me devendo uma conversa", ele disse. "Eu fiquei sete anos fora, voltei em dois mil e dezoito, e ele me deixou mexer no vinho por dois anos e meio antes do infarto. Nesses dois anos e meio ele provou tudo o que eu fiz e não elogiou nada. A última coisa que ele me disse sobre trabalho foi que eu tinha mão de francês."
"E isso é ruim?"
"Na boca dele era."
Marina pegou a taça de volta da mão dele, bebeu o resto e devolveu vazia.
"Tira dois meses de barrica", ela disse. "E não conta para ninguém que eu falei."
Ele riu. Olhou para ela e não parou de olhar.
"Marina."
"Não."
"Eu nem disse nada."
"Você disse com a cara toda." Ela desceu do muro, e ficou de pé do lado de dentro da propriedade dela, o que era uma covardia geográfica e os dois sabiam. "Eu tenho quarenta e um anos, uma dívida com o banco e nove hectares que dependem de eu acordar de bom humor. Eu não tenho estrutura para uma coisa que dá errado a novecentos metros da minha casa."
"E se der certo?"
"Aí é pior", ela disse. "Porque aí eu vou querer."
Ele pulou o muro. Não foi um gesto grande, o muro tem sessenta centímetros, mas foi o suficiente para ela ficar sem chão.
"Fala para eu ir embora", ele disse.
Ela não falou.
O beijo começou contra a pedra fria e terminou dentro do galpão, com o cheiro de mosto e de graxa, e ela foi quem puxou a camisa dele para fora da calça e disse, com a boca no ouvido dele, exatamente o que queria. A lanterna ficou acesa no muro a noite inteira, e no dia seguinte ninguém foi buscar.
Capítulo Quatro
Photo by Yusuf Miah via Pexels
A chuva de granizo caiu em vinte e um de novembro, às quatro e dez da tarde, durante onze minutos.
Marina viu do alpendre. Viu a folha nova picada, o cacho novinho no chão, a linha branca cobrindo o corredor entre as fileiras. Onze minutos.
Perdeu sessenta por cento.
O gerente do banco em Bento foi gentil, o que era pior. Explicou que sem safra não tinha faturamento, que sem faturamento não tinha renegociação, e que o prazo era março.
Otávio apareceu na terça com uma proposta impressa.
"Eu compro cinco hectares", ele disse. "Pelo preço do talhão do Espigão, corrigido. Você paga o banco, fica com quatro hectares, com o galpão, com a marca, e faz seis mil garrafas por ano sem dever nada a ninguém."
Marina leu a folha três vezes.
"Você já tinha isso pronto antes do granizo."
"Eu tinha um rascunho de agosto."
"De agosto."
"Marina."
"Não." Ela pôs a folha na mesa com muito cuidado. "Me responde uma coisa. A Estrela Comércio de Bebidas, de Caxias, que compra oitocentas garrafas minhas por ano desde dois mil e vinte e um, e que é a única razão de eu ainda estar aberta, é sua?"
O silêncio dele foi curto e foi suficiente.
"É de um primo meu", disse ele.
"Comprando com o teu dinheiro."
"Comprando vinho que é bom demais para o preço que você cobra."
"Quatro anos." Ela riu, e a risada saiu errada. "Quatro anos eu achando que tinha um cliente. Quatro anos eu dizendo para as pessoas nesta cidade que a Casa Bertoldo se sustenta sozinha, e o vale inteiro deve saber, menos eu."
"Ninguém sabe."
"Você sabe." Ela apontou a porta. "Sai do meu galpão."
"Se eu tivesse te oferecido ajuda em dois mil e vinte e um, você teria aceitado?"
"Não."
"Então."
"Então você devia ter me deixado quebrar", ela disse. "Quebrar é meu. Eu tinha direito a isso."
Capítulo Cinco
Ela não vendeu os cinco hectares.
Passou dezembro e janeiro com a planilha na mesa da cozinha, e em fevereiro atravessou os novecentos metros a pé, de manhã cedo, com uma pasta e sem bater na porta.
Otávio estava no laboratório com dois estagiários. Ela pôs a pasta na bancada.
"Sociedade", disse Marina. "Não venda."
"Como assim?"
"Eu entro com os nove hectares, com a marca, com o merlot e com a prensa de sessenta e oito, que fica onde está. Você entra com o inox, com a garrafeira, com o restaurante e com o teu diploma francês." Ela abriu a pasta. "Cinquenta e cinco por cento meus."
"Cinquenta e cinco."
"O merlot é meu, Otávio. Você mesmo diz que é o melhor do vale."
Ele pegou o contrato e leu a primeira página inteira antes de falar.
"Tem uma cláusula aqui sobre a Estrela Comércio."
"Tem." Ela cruzou os braços. "A Estrela cancela o pedido em março e nunca mais compra uma garrafa minha. Se eu quiser vender oitocentas, eu vendo com a minha cara na frente. Isso não é negociável e não é orgulho, é contabilidade honesta."
Otávio pousou o contrato.
"E nós dois?"
"Nós dois está na página quatro."
"Você pôs a gente no contrato?"
"Eu pus uma cláusula dizendo que se acabar, nenhum dos dois pode usar isso como argumento em decisão da vinícola." Ela descruzou os braços. "É a coisa mais romântica que eu já escrevi na vida, e eu escrevi num sábado à noite, chorando, com uma taça do teu cabernet, que por sinal melhorou depois que você tirou a barrica."
Ele deu a volta na bancada.
"Você chorou com o meu cabernet."
"Não conta para ninguém."
Assinaram em quinze de março, num cartório de Bento Gonçalves, e no ano seguinte a garrafa que saiu do talhão do Espigão trazia dois nomes no rótulo, o dela primeiro, porque cinquenta e cinco é cinquenta e cinco.
Sobre esta história
A garrafa de mil novecentos e oitenta e três enterrada na cabeceira existe mesmo?
Existe, e está do lado de lá da cerca, como o pai de Otávio dizia. Os dois avós enterraram juntos numa aposta de mil novecentos e oitenta e quatro, e cada um contou a história para a própria família com a cerca em posição diferente. Marina e Otávio desenterraram em dois mil e vinte e seis. O vinho estava imprestável e eles beberam mesmo assim.
Por que Otávio comprou o talhão do Espigão em vez de deixar Marina levar?
Porque havia um terceiro interessado no leilão, uma empresa de extração de basalto de Caxias, que ia abrir frente de lavra a duzentos metros do lençol que abastece as duas propriedades. Otávio sabia e não contou a Marina, porque contar significaria admitir que estava protegendo os nove hectares dela. Ele preferiu passar por canalha, que era mais fácil.
A Estrela Comércio realmente cancelou o pedido?
Cancelou em março, por escrito, e o primo de Otávio ligou tentando explicar que gostava do vinho de verdade. Marina agradeceu e manteve o cancelamento. Em dois anos ela recolocou as oitocentas garrafas em nove restaurantes de Porto Alegre e duas casas em São Paulo, com a própria cara na frente, exatamente como disse que faria.
Como ficou a relação de Marina com os funcionários da Sanvitto depois da sociedade?
Difícil nos primeiros seis meses. Dois enólogos assistentes pediram demissão porque não aceitavam ordem dela, e um deles disse por que em voz alta numa reunião. Marina não substituiu nenhum dos dois de imediato e passou o inverno inteiro trabalhando no tanque junto com o pessoal da linha. Depois disso parou de ser assunto.
Eles casaram?
Não. Moram na casa dela, que é menor e mais fria, porque o galpão fica a trinta metros e Marina não dorme longe da prensa em época de safra. Otávio pede em casamento uma vez por ano, no aniversário do granizo, e ela responde sempre a mesma coisa: que a página quatro do contrato já resolve.


