Sunlit historic town square with cobblestone streets and classic architecture.
Romance Contemporâneo

O Acordo da Última Estante

Magalhães Raul9 min de leitura5 DE SET. DE 2026

Capítulo Um

A poeira de carvão acumulada atrás das prateleiras de jatobá tinha o cheiro exato dos verões de 1994, quando Cecília ainda acompanhava o avô no inventário do Sebo São José.

"Se você continuar puxando essa prancha sem segurar a base, o teto da sala de gravuras vem abaixo antes do meio-dia."

Cecília nem precisou virar o rosto para saber quem estava parado no vão da porta. Henrique trazia o mesmo tom calmo e levemente exasperado que usava desde os tempos da faculdade de História na UFOP, quando os dois disputavam as melhores edições da Coleção Reconquista do Brasil na biblioteca central.

"O prédio foi arrematado no inventário judicial da família Guimarães", ela disse, sem soltar o pé de cabra improvisado. "E a cláusula três da ordem de desocupação diz que o acervo restante pertence a quem apresentar a proposta de compra direta antes de sexta-feira. Eu cheguei vinte minutos antes de você."

Henrique deu dois passos para dentro da sala, desviando das pilhas de jornais amarrados com barbante vegetal. Ele vestia a jaqueta de sarja de sempre, com os punhos desfiados de tanto roçar em bancadas de madeira, e carregava uma lanterna pequena de sapateiro presa ao bolso superior.

"Você chegou vinte minutos antes porque passou por cima do aviso de estrutura comprometida na entrada da ladeira", disse ele. "O corretor me entregou as chaves da frente. Você entrou pelo alçapão da copa."

"O alçapão estava sem cadeado."

"O alçapão é propriedade do espólio, Cecília."

Ela finalmente largou a ferramenta de metal contra o piso de pedra sabão e encarou o rival. As janelas altas do casarão do século dezoito deixavam passar uma luz amarelada, filtrada pelo nevoeiro denso que costumava descer sobre as ladeiras de Ouro Preto no início da tarde.

"Se viemos arrematar os mesmos livros raros", disse ela, ajustando os óculos no topo da cabeça, "podemos passar quatro horas discutindo posse de imóvel ou podemos ver o que o velho Guimarães escondeu no fundo do poço da escada."

Henrique olhou para o vão escuro sob os degraus de madeira rangente. A lanterna dele lançou um feixe estreito sobre um caixote de cabiúna reforçado com cantoneiras de latão escurecido pelo tempo.

"Você não vai conseguir carregar aquilo sozinha até o seu carro", ele notou.

"E você não vai conseguir catalogar o conteúdo sem o meu catálogo de marcas d'água de papel mineiro."

Henrique ficou em silêncio por três segundos, calculando o peso do caixote e a teimosia da mulher à sua frente. "Cinquenta por cento de avaliação para cada um. Mas quem achar o diário de bordo da comarca de 1888 fica com o direito de primeira oferta."

"Fechado", ela disse. "Mas eu abro a fechadura."

Capítulo Dois

O caixote não continha os registros da comarca, mas sim três dezenas de cadernos encadernados em couro cru, com fitas de cetim desbotadas marcando páginas escritas em tinta ferrogálica.

Eles se acomodaram na mesa de centro do Sebo da Ladeira, a loja de Henrique, porque era o único espaço na rua Direita que contava com um aquecedor a óleo funcional e uma cafeteira italiana que não vazava pelo cabo.

"Escrita de mulher", disse Cecília, inclinando-se sobre a primeira folha aberta. "Trópico de Capricórnio, outubro de 1891. O nome na guarda foi raspado com lâmina, mas a caligrafia tem o mesmo traço inclinado das cartas da família Silveira."

Henrique serviu duas xícaras de café forte, sem açúcar, e deixou uma delas ao alcance da mão direita dela. Ele conhecia a rotina: Cecília tomava três goles antes de começar qualquer leitura minuciosa, e sempre limpava os dedos na flanela amarela antes de tocar no papel antigo.

"Ela não era da família Silveira", disse Henrique, puxando uma cadeira de palhinha para o outro lado da mesa. "Repara na menção ao moinho de pedra perto do chafariz dos Contos. Em 1891, aquele moinho pertencia aos Lemos. Ela era a filha mais nova do juiz de fora."

Cecília ergueu os olhos do texto. "Como você sabe disso?"

"Eu passei os últimos quatro meses pesquisando a linhagem dos Lemos para o artigo da revista do Instituto Histórico", ele respondeu, com a voz baixinha. "A garota se chamava Antonietta. Ela desapareceu dos registros da igreja em 1894, logo depois que o noivado com o herdeiro das minas de passagem foi cancelado."

"Cancelado por quê?"

"O livro de notas da paróquia não diz. Só há uma linha em latim mencionando ausência injustificada."

Cecília voltou ao diário. Na página datada de quinze de novembro de 1891, a autora descrevia um encontro secreto atrás da capela de São José. O homem não era o noivo abastado, mas sim um alfaiate italiano que tinha chegado à cidade para trabalhar na confecção dos uniformes da guarda municipal.

"Eles se encontravam às terças-feiras", Cecília leu em voz alta, o ritmo da leitura desacelerando à medida que as frases se tornavam mais íntimas. "Ele trazia retalhos de seda violeta escondidos no forro dos casacos para que ela pudesse bordar em segredo no quarto."

Henrique apoiou os cotovelos na madeira, observando o perfil de Cecília iluminado pela lâmpada de filamento. "Você costumava bordar quando estávamos no terceiro ano da faculdade."

"Eu parei quando o meu avô adoeceu e tive que assumir a administração da loja", ela disse, sem levantar a cabeça. "E você costumava ter tempo para conversar sem olhar o relógio a cada dez minutos."

"Eu olho o relógio porque tenho três entregas pendentes para a biblioteca da Universidade de São Paulo", ele disse, embora não fizesse menção de se levantar. "Continuar lendo é mais importante agora."

Capítulo Três

Stunning aerial view of Ouro Preto, Brazil, showcasing its historic architecture and mountainous landscape. Photo by Laura Beauty Designer | Brasil via Pexels

Ao longo das duas semanas seguintes, o leilão do casarão tornou-se um pano de fundo distante. Todos os fins de tarde, assim que as portas de ferro das lojas da rua Direita baixavam, Cecília cruzava o paralelepípedo molhado da travessa com sua pasta de documentos sob o braço e entrava no Sebo da Ladeira.

Eles dividiam a mesma mesa, os mesmos mapas antigos desdobrados sobre o balcão e a mesma busca pelas lacunas da história de Antonietta e do alfaiate chamado Matteo.

"Eles planejaram fugir no trem das cinco para o Rio de Janeiro", Cecília comentou numa noite de quinta-feira, enquanto a chuva batia forte contra as vidraças altas. "Ele comprou duas passagens de segunda classe com o dinheiro da venda de um relógio de ouro que herdara do pai."

Henrique estava sentado tão perto dela que o ombro dele tocava o dela a cada movimento de página. "O trem das cinco foi cancelado naquele dia por causa de um deslizamento na serra de Mantiqueira. Eu chequei os jornais da época no arquivo público ontem de manhã."

Cecília virou o rosto para ele. A distância entre os dois era de poucos centímetros. "Você foi ao arquivo público só para checar o horário do trem de 1893?"

"Fui", Henrique admitiu. O tom dele perdeu a ironia habitual. "Eu não queria que a história deles terminasse com uma promessa quebrada na estação."

"E por que você se importa tanto com o final deles?"

"Porque eu sei como é horrível ficar esperando alguém numa estação sem saber se a pessoa não veio por medo ou porque o caminho foi bloqueado."

O silêncio que se seguiu não era o silêncio dos livros velhos. Cecília lembrou-se perfeitamente do inverno de seis anos atrás, quando Henrique aceitara um convite de pesquisa em Lisboa e ela decidira não ir ao aeroporto de Confins para se despedir, temendo que um pedido de permanência destruísse os planos acadêmicos dele.

"Eu não fui àquele aeroporto porque achei que você voltaria se realmente quisesse voltar", ela disse, a voz quase inaudível contra o barulho da chuva na calha.

"Eu voltei no ano seguinte", Henrique respondeu, olhando fixamente para as mãos dela sobre o diário. "E a primeira coisa que fiz foi passar na porta do seu sebo. Você estava atendendo um turista e nem olhou para a calçada."

"Eu olhei", Cecília confessou. "Mas você já estava dobrando a esquina da matriz."

Capítulo Quatro

Sunlit historic town square with cobblestone streets and classic architecture. Photo by Toni Ferreira via Pexels

A última caderneta de Antonietta continha apenas dez páginas escritas. A data final era quatro de março de 1894.

Matteo não tinha faltado ao encontro por covardia. Ele fora detido pela polícia local sob a acusação falsa de contrabandear tecidos importados, uma manobra articulada pelo pai de Antonietta para forçar o casamento da filha com o herdeiro das minas.

"Ele passou três meses na cadeia da comarca", Henrique leu, apontando para o trecho amarelado na margem inferior. "Quando saiu, a família dela já a tinha enviado para um convento no interior de São Paulo."

"Espere", Cecília interrompeu, puxando uma folha solta que estava dobrada dentro da contracapa de couro. "Isto não é parte do diário. É uma carta não enviada."

A carta trazia o selo de papel seco do cartório de Taubaté, datada de 1902. Matteo tinha conseguido localizar o paradeiro de Antonietta anos mais tarde, após a morte do pai dela. A última linha da carta dizia: "Comprei a casa da ladeira com a varanda virada para o chafariz. A chave continuará sob a pedra solta do degrau da entrada até que você decida voltar."

Cecília ergueu os olhos para Henrique. "A casa da ladeira."

"O casarão que estamos inventariando", ele completou, os olhos brilhando com a descoberta. "O velho Guimarães que morreu mês passado era neto deles. Eles conseguiram voltar."

Henrique levantou-se da cadeira, pegou a lanterna e caminhou até a porta dos fundos do sebo. "Cecília, vem comigo."

"Para onde? Está chovendo forte lá fora."

"Para a entrada do casarão."

Eles subiram a ladeira sob o mesmo guarda-chuva grande que Henrique mantinha atrás do balcão. O casarão estava escuro e silencioso. Henrique ajoelhou-se na pedra sabão do primeiro degrau da escada externa, tateando a base da alvenaria até encontrar uma fenda solta no rejunte de cal.

Com o auxílio do pé de cabra pequeno, ele deslocou a pedra. Escondida no nicho seco havia uma caixa de folha de flandres contendo um par de alianças de prata escurecida e uma chave de ferro trabalhada.

"Eles viveram aqui", Cecília murmurou, sentindo um aperto no peito que não tinha nada a ver com nostalgia histórica. "Eles conseguiram."

"Eles não deixaram o tempo nem a distância decidirem por eles no final", disse Henrique. Ele se levantou, ficando muito próximo de Cecília sob a aba do guarda-chuva. "Nós passamos seis anos fingindo que éramos apenas concorrentes comerciais porque era mais fácil do que admitir que nenhum de nós dois queria trabalhar nesta rua sem o outro do lado."

"Você é extremamente irritante quando faz diagnósticos pessoais", ela disse, mas não recuou nem um milímetro.

"E você é a única pessoa em Minas Gerais que consegue identificar uma edição de 1890 pelo cheiro da cola", ele respondeu.

Henrique segurou o rosto dela com as duas mãos, frias por causa do vento da serra, e a beijou. O beijo não teve nada da hesitação das conversas acadêmicas; era quente, urgente e calmo ao mesmo tempo, como se estivesse guardado desde a época da faculdade.

Capítulo Cinco

Na manhã de sexta-feira, o corretor de imóveis do espólio Guimarães aguardava na porta do cartório de notas da praça Tiradentes.

Cecília e Henrique chegaram juntos, caminhando lado a lado pela calçada de pedra.

"Vocês decidiram quem vai apresentar a proposta de compra direta pelo acervo e pela opção de compra do imóvel?", o corretor perguntou, ajustando os óculos de grau. "Tenho outro interessado da capital na linha."

Cecília tirou da pasta um documento assinado por ambos na noite anterior.

"A proposta é conjunta", ela declarou. "Livraria e Sebo Lemos & Andrade. Vamos unificar as duas lojas no casarão da ladeira."

O corretor olhou para Henrique, buscando confirmação. Henrique apenas sorriu e pegou a mão de Cecília, entrelaçando seus dedos nos dela com firmeza.

"Ela é a sócia majoritária no que diz respeito ao acervo de manuscritos", Henrique disse. "Eu cuido da restauração das estruturas de madeira."

Depois de assinados os papéis de transferência, os dois desceram a ladeira em direção ao casarão. As janelas do segundo andar foram abertas para deixar o ar fresco da manhã entrar e dissipar a poeira de décadas.

Na mesa da sala principal, o diário de Antonietta e Matteo repousava sobre uma flanela limpa, pronto para ser catalogado e exibido na primeira vitrine da nova loja unificada.

"Você acha que devemos vender o diário se algum colecionador fizer uma oferta alta?", Cecília perguntou, encostando a cabeça no ombro de Henrique enquanto observavam a vista do chafariz dos Contos da varanda.

"Nem por todo o acervo da Biblioteca Nacional", Henrique respondeu, abraçando-a pela cintura. "Algumas histórias precisam ficar exatamente onde foram escritas."

Sobre esta história

Antonietta e Matteo realmente existiram na história de Ouro Preto?

A história é uma ficção contemporânea ambientada em Ouro Preto, criada com base na atmosfera real e na rica arquitetura colonial da cidade. Os personagens de Antonietta e Matteo foram concebidos para espelhar a trajetória amorosa de Cecília e Henrique, unindo pesquisa histórica, elementos locais e uma sensível narrativa de romance urbano.

O que acontece com os dois sebos originais da rua Direita?

Os acervos valiosos dos dois estabelecimentos foram inteiramente fundidos e transferidos com cuidado para o casarão histórico restaurado. O antigo espaço comercial pertencente a Cecília foi transformado em um ateliê especializado em restauração de papéis raros e encadernação artesanal, gerenciado conjuntamente por ambos os sócios com grande dedicação diária.

Como a família de Cecília reagiu à união dos negócios e do casal?

A família acolheu a notícia com enorme entusiasmo e alívio, uma vez que o falecido avô de Cecília sempre nutria um profundo respeito pelo rigor profissional, pelo caráter ilibado e pela dedicação exemplar de Henrique ao resguardo e à preservação da memória bibliográfica de toda a região mineira.

Existe algum plano para publicação dos diários encontrados no casarão?

Dentro da narrativa, Cecília e Henrique preparam uma cuidadosa edição fac-similar comentada dos cadernos originais de Antonietta e Matteo. A publicação contará com notas históricas detalhadas e contextualização de época escritas a quatro mãos, sendo destinada ao lançamento oficial pela editora universitária da região no ano seguinte.