A joyful couple hugging on a train platform capturing the essence of love and togetherness.
Romance Contemporâneo

A Casa do Cais

Magalhães Raul8 min de leitura24 DE AGO. DE 2026

Capítulo Um

A chave girou na terceira tentativa, e a porta cedeu com o barulho de madeira inchada. Renata entrou na casa da mãe com a mão na parede procurando o interruptor que ela sabia estar quinze centímetros mais baixo do que deveria.

A luz acendeu. Sala igual. Sofá com plástico. Um calendário de dois mil e vinte e dois parado em novembro.

Ela pôs a mala no chão e foi direto para a cozinha abrir a janela dos fundos, porque era o que a mãe fazia toda vez que entrava em casa, e porque ela estava com quarenta e quatro anos e não conseguiu evitar.

Do outro lado do quintal, além do muro baixo, o estaleiro estava aceso. Uma lâmpada de galpão, uma serra circular ligada, alguém batendo em madeira num ritmo constante.

O barulho parou. Renata fechou a janela rápido demais e ficou parada no escuro da cozinha, com quarenta e quatro anos, escondida de um serrote.

Ele bateu na porta na manhã seguinte, às sete e dez, com dois pães na mão.

"Bom dia."

"Gustavo."

"Vi a luz ontem." Ele estendeu o saco de pão. "Da padaria da Neide. Ela ainda faz."

Renata pegou o saco porque não pegar seria pior. Ele tinha o cabelo grisalho na têmpora e uma cicatriz nova na sobrancelha, e a mesma maneira de ficar meio de lado quando falava, como se estivesse sempre pronto para dar passagem a alguém.

"Você trabalha ali?", ela perguntou.

"É meu."

"O estaleiro do seu Nildo é seu?"

"Comprei em dois mil e catorze, pagando em dez anos." Ele pôs a mão no batente. "Terminei de pagar em fevereiro."

"Parabéns."

"Obrigado."

O silêncio ficou de pé entre os dois, do tamanho de vinte e cinco anos.

"Vim vender a casa", ela disse.

"Eu imaginei."

"Duas semanas, no máximo. Tenho plantão dia dezenove."

"Você é médica mesmo, então."

"Sou cardiologista em Salvador."

Gustavo abaixou a cabeça e sorriu para o chão, e foi um sorriso sem nada de ruim dentro, o que a desmontou completamente.

"Que bom, Renata", ele disse. "Que bom mesmo."

Capítulo Dois

A casa tinha trinta e um anos de coisas.

Ela passou os três primeiros dias enchendo caixas e chorando em três delas: a das fotografias, a das receitas escritas à mão e a de uma sacola com roupinha de bebê que a mãe guardou por motivo que ninguém nunca vai saber.

No quarto dia, a bomba d'água morreu.

Gustavo atravessou o muro baixo com uma caixa de ferramentas e passou duas horas debaixo da pia sem dizer quase nada. Ela ficou sentada na cadeira da cozinha, olhando as botas dele.

"O rotor está travado", ele disse, de baixo. "Consigo soltar, mas essa bomba é de mil novecentos e noventa e nove."

"Igual à minha formatura."

"Igual à minha condicional."

Ela não respondeu logo. Ele saiu de baixo da pia, sentou no chão de ladrilho e limpou as mãos num pano.

"Desculpa", disse ele. "Saiu sozinho."

"Não pede desculpa por isso." Ela apertou as mãos no colo. "Você pediu desculpa por essa história alguma vez na vida?"

"Não."

"Pois é."

Gustavo apoiou o braço no joelho.

"Renata, o que você falou naquela audiência era verdade."

"Eu sei que era verdade."

"Você viu o carro na garagem do meu pai naquela noite. O carro estava lá. Se você tivesse dito que não estava, você tinha mentido debaixo de juramento, com dezenove anos, para um juiz."

"E você não teria pego dois anos."

"Eu peguei dois anos porque meu irmão levou um carro roubado para dentro da casa do meu pai e depois sumiu." Ele falou devagar, sem levantar a voz. "Não foi você que roubou o carro. Não foi você que fugiu para Goiás. Você foi a única pessoa naquele fórum que falou o que aconteceu."

Ela levantou e foi até a pia, de costas, e ficou olhando a torneira sem água.

"Eu fui embora depois", ela disse. "Isso é a parte que ninguém conta. Eu não fui embora porque menti, eu fui embora porque falei a verdade e não aguentei o que fizeram comigo na cidade depois. Sua mãe atravessou a rua para não passar por mim, Gustavo. Duas vezes."

"Eu sei."

"E eu fiz medicina, e casei, e descasei, e não voltei aqui nem quando minha mãe quebrou o quadril, mandei dinheiro e mandei enfermeira." Ela virou. "Então não fica aí no chão da minha cozinha me dizendo que eu fiz a coisa certa, porque eu convivo comigo há quarenta e quatro anos e eu sei o que eu fiz e o que eu não fiz."

Gustavo levantou. Ficou parado, com o pano na mão.

"Tá bom", ele disse. "Então eu vou dizer outra coisa."

"Diz."

"Eu esperei você até dois mil e três."

Capítulo Três

A joyful wedding couple embracing under romantic string lights at night. Photo by Edward Eyer via Pexels

A filha dele chamava-se Alicinha, tinha dezessete anos, e apareceu na casa no sábado com um prato coberto de papel alumínio e uma curiosidade completamente sem disfarce.

"Meu pai mandou o peixe. Ele fez demais."

"Ele fez de propósito."

"Fez." A menina entrou sem ser convidada e olhou as caixas. "A senhora é a Renata da fotografia da caixa de ferramenta?"

Renata sentou no braço do sofá.

"Que fotografia?"

"Tem uma foto colada por dentro da tampa da caixa de ferramenta dele, desde antes de eu nascer. Duas pessoas numa canoa. Eu perguntei uma vez quem era e ele disse que era uma amiga da adolescência." Alicinha pôs o prato na mesa. "Ele mente muito mal."

A mãe dela tinha morrido em dois mil e vinte, de covid, com quarenta e um anos. Alicinha contou isso na mesma visita, sem drama, do jeito que adolescente conta as coisas grandes, no meio de outro assunto.

Renata ficou com o peixe esfriando na mesa por vinte minutos depois que a menina saiu.

Naquela noite ela pulou o muro baixo, e o muro era mais alto do que ela lembrava, e ela riu sozinha no meio do quintal por causa disso.

Gustavo estava no galpão passando verniz num casco de madeira.

"Você fez peixe demais", ela disse.

"Fiz."

"Sua filha me interrogou."

"Ela é assim." Ele largou o pincel na lata. "Puxou à mãe. A Cátia perguntava tudo três vezes."

Renata andou até o casco e passou a mão na madeira lixada, que era macia como coisa viva.

"Eu sinto muito pela Cátia", ela disse. "Sinto de verdade. Eu li o nome dela no jornal em julho de vinte e não liguei para você."

"Ninguém sabia o que fazer naquele ano."

"Eu sabia. Era o meu ofício naquele ano." Ela olhou para ele. "Eu tinha noventa e seis leitos e trinta e um respiradores e eu ficava lendo os nomes dos mortos das cidades pequenas de madrugada. Eu vi o nome dela num sábado e fechei o computador."

Gustavo pôs a mão na dela, em cima da madeira.

"Renata."

"Eu não quero pena e não quero perdão", ela disse rápido. "Eu quero saber uma coisa só, e depois eu volto para o meu lado do muro."

"Pergunta."

"Você esperou até dois mil e três. E depois?"

Ele demorou a responder, e quando respondeu não soltou a mão dela.

"Depois eu vivi", disse ele. "Amei a Cátia, que merecia, e fiz uma filha, e comprei um estaleiro. Isso é tudo verdade e eu não tiro uma vírgula." Ele apertou os dedos dela. "E ontem, quando a luz da sua cozinha acendeu, eu sentei no chão do galpão porque minha perna não segurou."

Ela beijou ele antes de decidir. As mãos dele cheiravam a verniz e ficaram na cintura dela por um segundo antes de ele afastar o rosto, dois centímetros, só o suficiente.

"Você vai embora no dia dezoito", disse ele.

"Vou."

"Então me diz agora o que isso é, porque eu não tenho mais idade para descobrir depois."

"Eu não sei o que isso é." Ela segurou o rosto dele com as duas mãos. "Eu sei o que eu quero hoje. Isso serve?"

"Serve."

O galpão ficou aceso até tarde, e no dia seguinte o casco levou uma segunda demão que ninguém tinha planejado.

Capítulo Quatro

A loving couple sharing a tender moment by a doorway with natural light flowing in. Captured in Buenos Aires. Photo by Diego Fioravanti via Pexels

Na quinta-feira, Alicinha bateu na porta da casa às onze da noite, chorando de raiva.

Tinha ido a uma festa em Olivença no sábado anterior, no carro de um menino de dezoito anos que bateu na traseira de uma moto e fugiu do local. O motociclista estava internado em Itabuna com a bacia quebrada. A família do menino era conhecida na cidade. Uma tia dele tinha ligado para o celular de Alicinha oferecendo dinheiro e sugerindo que a menina dissesse que a moto entrou na frente.

"Meu pai não sabe", disse ela.

"Vai saber agora."

"A senhora não entende, ele vai surtar, ele já..."

"Ele já perdeu dois anos da vida porque alguém não falou o que viu", disse Renata. "É exatamente por isso que ele precisa saber hoje."

Gustavo ouviu tudo em pé, na sala, sem interromper uma vez. Quando a filha terminou, ele se sentou no sofá com plástico e ficou olhando as próprias mãos.

"Amanhã de manhã a gente vai na delegacia", disse ele.

"Pai."

"Você vai contar o que viu."

"Eles vão fazer da minha vida um inferno nesta cidade."

"Vão." Ele levantou os olhos. "Vão mesmo, filha. Vão falar de você na padaria, e alguém vai atravessar a rua para não te cumprimentar. Eu não vou te prometer que não dói."

Alicinha olhou de um para outro, e o queixo dela tremeu.

"E aí o que eu faço?"

Renata sentou ao lado dela.

"Aí você vive", disse. "Você vive e é ótima e vai embora estudar, se quiser, e volta quando puder. E daqui a vinte e cinco anos alguém vai bater na sua porta com pão e você vai descobrir que valeu."

Capítulo Cinco

Ela não vendeu a casa.

Tirou o plástico do sofá, mandou trocar a bomba d'água por uma de dois mil e vinte e cinco, e pôs um anúncio de aluguel de temporada que rendeu quase nada no primeiro ano.

Em Salvador, pediu redução de carga e ficou com três dias de consultório e um de ambulatório. Sexta à noite ela pegava a estrada, e chegava em Ilhéus quase meia-noite, e a luz do galpão estava sempre acesa mesmo quando não tinha ninguém trabalhando, porque ele passou a deixar acesa de propósito.

O menino do carro respondeu por lesão corporal culposa e omissão de socorro. Alicinha depôs em fevereiro, perdeu duas amigas e um convite de formatura, e passou em nutrição na federal de Salvador em janeiro do ano seguinte, o que resolveu de uma vez o assunto do quarto de hóspedes.

No aniversário de quarenta e seis anos de Renata, Gustavo entregou um pacote embrulhado em jornal.

Era a tampa velha da caixa de ferramentas, com a fotografia ainda colada por dentro, dois adolescentes numa canoa em mil novecentos e noventa e oito.

"Comprei caixa nova", ele disse. "Não ia jogar a tampa fora."

Sobre esta história

O irmão de Gustavo chegou a aparecer de novo?

Apareceu em dois mil e onze, em Goiânia, quando foi preso por outro caso e o nome bateu no sistema. Ligou para Gustavo do presídio uma única vez, pedindo dinheiro para advogado. Gustavo mandou o dinheiro e não atendeu as ligações seguintes. Os dois não se falam desde então, e Alicinha nunca conheceu o tio.

Por que Renata nunca voltou nem quando a mãe quebrou o quadril?

Porque ela tinha construído uma vida inteira em cima da ideia de que aquela cidade era um lugar onde ela não existia mais. Voltar por três dias significaria descobrir se isso era verdade, e ela preferia não saber. A mãe entendeu isso melhor do que ela e nunca cobrou por telefone, o que de certa forma foi pior.

A mãe de Gustavo, que atravessava a rua, ainda está viva?

Está, com oitenta e dois anos, morando com uma irmã em Itabuna. Viu Renata pela primeira vez em vinte e cinco anos num almoço de domingo em que Gustavo não avisou nenhuma das duas. Não pediu desculpa, porque não é o tipo de mulher que pede, mas serviu duas vezes o prato de Renata e mandou levar o resto para casa.

A casa foi vendida depois?

Nunca. Em dois mil e vinte e nove, quando Renata finalmente saiu de Salvador de vez, a casa virou moradia e o aluguel de temporada acabou. O muro baixo entre o quintal e o estaleiro foi derrubado num sábado de manhã, com marreta, e os dois discutiram por uma hora sobre onde ficaria a nova cerca.

Alicinha aceitou Renata como companheira do pai?

Aceitou antes dos dois aceitarem. Ela conta para as amigas que apresentou os dois, o que é falso e ninguém corrige. A relação das duas é de amizade adulta e não de mãe e filha, e as duas fizeram questão de deixar isso claro logo no primeiro ano, cada uma do seu jeito.