
Sete Dias de Aluguel
Capítulo Um
A chave estava debaixo do vaso de manjericão, exatamente onde o anúncio prometia, e Teresa já tinha as malas dentro de casa quando ouviu o barulho de outra chave na fechadura.
"Com licença", disse a voz de um homem, do lado de fora. "Isso é a Casa Amendoeira?"
"É. E já está ocupada."
A porta abriu mesmo assim, porque ele também tinha a senha do cofre-chave. Um homem de bermuda surfista e óculos escuros na cabeça ficou parado no batente, olhando as malas dela espalhadas na sala.
"Eu reservei essa casa há dois meses", ele disse.
"Eu reservei há três semanas, e o anfitrião confirmou hoje de manhã."
Os dois pegaram o celular ao mesmo tempo. As mensagens de confirmação eram idênticas, com o mesmo código de reserva na primeira linha, só o nome do hóspede diferente.
"Ele alugou duas vezes", disse Teresa, sentando no braço do sofá. "Pro mesmo período."
"E não atende o telefone." O homem — que se chamava Diego, segundo a etiqueta ainda pendurada na mala dele — tentou ligar de novo, sem sucesso. "É sexta-feira, sete da noite, e as outras casas da região estão lotadas por causa do feriado."
Teresa olhou para as sete malas, dela e dele somadas, espalhadas pela sala pequena da casa que tinha uma cama de casal, um sofá-cama e nenhuma outra opção.
Capítulo Dois
"Eu fico com o quarto", disse Diego, sem muita cerimônia.
"Por que você fica com o quarto?"
"Porque eu reservei primeiro."
"Isso não significa nada legalmente." Teresa cruzou os braços. "Vamos resolver isso como gente adulta: eu fico com o quarto as primeiras três noites, você fica os últimos quatro. Ou o contrário. Sorteio."
Ele considerou por um momento, depois riu, um riso que ela não esperava vindo de alguém tão irritante nos primeiros dois minutos.
"Sorteio", ele concordou.
Ela ganhou o sorteio. Ele foi para o sofá-cama sem reclamar, o que ela achou suspeito.
Na manhã seguinte, ele já estava na cozinha fazendo café quando ela desceu, com uma prancha de surf encostada na porta e uma camisa que ele não tinha se dado o trabalho de vestir por completo.
"Bom dia", disse ele. "Café?"
"Bom dia." Ela aceitou a caneca. "Você surfa toda manhã?"
"Todo dia que tem onda. É basicamente o motivo de eu ter vindo pra cá."
"Eu vim porque preciso terminar um livro em sete dias e minha editora vai me matar se eu não entregar."
Diego ergueu as sobrancelhas. "Você escreve o quê?"
"Romance." Ela bebeu o café, que estava bom demais para alguém que ela conhecia havia doze horas. "E antes que você pergunte, não, não é sobre uma casa de praia dividida por engano."
"Eu ia perguntar exatamente isso."
Capítulo Três
Photo by sofia comasetto via Pexels
A rotina se acomodou nos dias seguintes de um jeito que nenhum dos dois esperava. Ele surfava de manhã, ela escrevia na varanda com vista pro mar. Ao meio-dia, dividiam o almoço porque comprar mantimento pra dois em vez de um saía mais barato, e à noite, sem combinar, os dois acabavam sentados na mesma varanda, ele com uma cerveja, ela com o notebook fechado.
"Como está indo o livro?", ele perguntou, na quarta noite.
"Travado."
"Em que parte?"
"No final. Meus personagens precisam decidir se ficam juntos ou não, e eu não consigo escrever a cena porque não sei qual é a resposta certa."
Diego se recostou na cadeira. "Talvez não exista resposta certa. Talvez exista só a resposta que dói menos escrever."
Ela olhou para ele por um tempo mais longo do que pretendia. "Você surfa e dá palpite literário."
"Eu era professor de redação antes de largar tudo pra dar aula de surf. Ainda tenho as manias."
"Você largou uma carreira pra ensinar surf?"
"Larguei uma carreira que me fazia infeliz pra fazer uma coisa que me faz feliz seis meses por ano." Ele deu de ombros. "Os outros seis eu dou aula particular de português pra quem precisa. Funciona."
Teresa sentiu alguma coisa se mexer no peito que ela reconheceu, incomodada, como o início de um interesse que não tinha planejado ter naquela semana.
Capítulo Quatro
Photo by sofia comasetto via Pexels
No quinto dia, choveu o dia inteiro, e a casa pequena ficou pequena demais para dois adultos evitando se olhar.
"Eu posso ler o que você escreveu?", Diego perguntou, no meio da tarde, quando o tédio venceu a educação.
"Não."
"Só o primeiro capítulo."
"Não."
Ele insistiu por mais uma hora, e ela cedeu porque a chuva não parava e discutir era mais cansativo que ceder. Diego leu em silêncio, sentado no sofá, enquanto ela fingia trabalhar e na verdade observava a cara dele.
"Isso é bom", ele disse, no fim. "De verdade bom."
"Não precisa mentir."
"Eu não minto sobre texto. Nunca menti nem quando era mais fácil mentir pros meus alunos." Ele fechou o notebook. "O problema não é o seu livro. É que você está com medo de escrever um final feliz porque a sua vida real não teve um."
Teresa sentiu o rosto esquentar. "Você não sabe nada sobre a minha vida real."
"Eu sei que você chegou sozinha numa casa de praia pra passar sete dias trabalhando no feriado mais movimentado do verão. Isso já diz alguma coisa."
Ela ficou em silêncio por um tempo longo, olhando a chuva na janela.
"Eu terminei um noivado há quatro meses", ela disse, finalmente. "Ele achou que eu escolhia os livros no lugar dele. Talvez tenha escolhido mesmo."
"E você se arrepende?"
"Do noivado, não. Do jeito que terminou, um pouco."
Capítulo Cinco
No último dia, com as malas já feitas pelos dois, Diego apareceu na varanda com duas canecas de café, o mesmo ritual da primeira manhã.
"A gente devia trocar telefone", ele disse. "Pra fins puramente práticos, tipo, se o cara do aplicativo alugar essa casa três vezes de novo ano que vem."
Teresa riu. "Só por isso?"
"E porque eu quero saber como termina o livro."
"O livro ainda não tem final."
"Então me manda quando tiver." Ele hesitou, a caneca parada no ar. "E se o final for feliz, eu quero saber se teve alguma coisa a ver com essa semana."
Ela pegou o celular dele e digitou o próprio número, sem responder à pergunta em voz alta.
"Você vai voltar aqui no verão que vem?", ela perguntou.
"Sempre volto."
"Talvez eu reserve a mesma casa."
"De propósito, dessa vez?"
"De propósito." Ela devolveu o celular. "Mas primeiro eu preciso terminar o livro."
Ela escreveu o final três semanas depois, numa manhã qualquer em casa, e mandou para ele antes de mandar para a editora. Ele respondeu com uma única frase: "Sabia que você ia escolher ficar."
Sobre esta história
O dono da casa que alugou duas vezes o mesmo período nunca resolveu o problema?
Resolveu, tarde. Ligou no domingo seguinte se desculpando por um erro no calendário do aplicativo, e ofereceu reembolso de cinquenta por cento para os dois. Teresa recusou o reembolso e pediu, em vez disso, que ele bloqueasse aquela mesma semana no ano seguinte só para ela — o que ele achou estranho, mas aceitou.
Teresa terminou o livro a tempo da entrega?
Terminou com dois dias de atraso, o que a editora tolerou porque o capítulo final, reescrito depois da semana na praia, era visivelmente melhor que o resto do manuscrito. O editor perguntou o que tinha mudado. Ela disse apenas que tinha conhecido alguém que sabia sobre finais.
Diego realmente larga tudo seis meses por ano para surfar?
Larga, e mantém isso há quatro anos, financiado pelas aulas particulares de português que dá à distância nos meses de inverno. Os alunos, majoritariamente estrangeiros aprendendo a língua, não fazem ideia de que o professor deles passa metade do ano numa prancha.
Eles reservaram a mesma casa no ano seguinte?
Reservaram, os dois, juntos dessa vez, sem erro de calendário nenhum. Diego chegou primeiro e deixou a chave debaixo do mesmo vaso de manjericão, com um bilhete dizendo "Dessa vez eu reservei o quarto pra nós dois."


