A couple embraces near a vintage blue car at sunset with a vibrant sky backdrop.
Novelas Curtas

O Táxi da Meia-Noite

Magalhães Raul4 min de leitura5 DE SET. DE 2026

Capítulo Um

O aplicativo confirmou a corrida às onze e quarenta e um, e Bianca só percebeu o problema quando o carro já tinha parado na esquina errada, com outra pessoa dentro.

"É corrida compartilhada", disse o motorista, sem tirar os olhos da avenida lotada de gente indo para a praia. "Vocês dois vão pro mesmo lado."

Rafael estava no banco de trás, com uma garrafa de espumante ainda lacrada no colo e a gravata borboleta torta.

"Você tem que estar brincando", ele disse.

"Eu não pedi carro compartilhado com você." Bianca entrou porque não tinha alternativa: eram onze e quarenta e três, os fogos começavam à meia-noite, e nenhum outro carro apareceria a tempo naquele trânsito. "O aplicativo que decidiu isso."

"O aplicativo tem senso de humor péssimo."

Ela fechou a porta e ficou olhando para frente, para o retrovisor, para qualquer lugar que não fosse o perfil dele.

"Cinco anos", disse Rafael, baixo.

"Eu sei contar."

"Só falando."

"Não precisa falar."

O motorista aumentou o volume do rádio, que tocava contagem regressiva de alguma rádio de praia, e os dois ficaram em silêncio pelos primeiros oito minutos, presos num engarrafamento que não tinha jeito de desviar.

Capítulo Dois

A joyful street scene in Rio de Janeiro, Brazil, with people celebrating around a drink stand. Photo by Stella Giordano via Pexels

"Você está bem?", ele perguntou, quando o silêncio ficou pesado demais para o espaço do banco de trás.

"Estou indo pra festa da minha prima."

"Eu também. Bruna me convidou."

Bianca virou a cabeça pela primeira vez. "Você conhece a Bruna."

"Conheço você há sete anos, Bianca. Conheci sua prima em quatro aniversários diferentes."

Ela riu, um som curto que escapou antes que ela decidisse não rir. "Verdade."

O carro andou dois quarteirões e parou de novo. Alguém no banco da frente, um estranho que tinha entrado numa parada anterior, cantarolava a música do rádio sem se importar com o clima atrás dele.

"Você cortou o cabelo", disse Rafael.

"Foi há dois anos."

"Eu não te vejo há dois anos."

"Eu sei quando a gente parou de se ver."

Ele apertou a garrafa no colo. "Eu queria ter ligado no seu aniversário."

"Por que não ligou?"

"Porque eu não sabia se você ia atender, e eu preferia não saber a resposta do que ouvir ela."

Bianca olhou pela janela. Os prédios da orla começavam a aparecer, com as luzes da queima já sendo testadas em pontos isolados do céu.

"Isso é covardia, Rafael."

"Eu sei."

Capítulo Três

O carro parou de vez às onze e cinquenta e seis, três quarteirões antes do prédio da Bruna, porque a rua tinha sido fechada para o público de réveillon.

"Vou ter que descer aqui", disse o motorista. "Ninguém passa de carro daqui pra frente."

Bianca abriu a porta. O barulho da multidão entrou de uma vez, gente com taça na mão, crianças com apito, um grupo cantando fora do tom.

Rafael desceu do outro lado, ainda com a garrafa, e ficou parado no meio da calçada lotada.

"A gente devia andar junto até lá", ele disse. "Vai ser mais rápido achando espaço na multidão a dois."

"Vai ser mais rápido eu ir sozinha."

"Bianca."

Ela parou. O relógio de alguém por perto anunciou faltar três minutos.

"O que você quer, Rafael?"

Ele olhou para a garrafa que segurava, como se procurasse a resposta ali dentro.

"Eu quero te dizer uma coisa antes da virada, porque depois da virada todo mundo se abraça e eu não sei se eu vou ter coragem de abraçar você sem dizer isso antes."

"Diz rápido."

"Eu terminei com você porque tive medo. Não porque parei de gostar. Eu tinha vinte e sete anos, tinha acabado de perder o emprego, e me pareceu mais fácil perder você numa conversa de dez minutos do que descobrir, aos poucos, que eu não tinha estrutura pra te dar o que você merecia."

Bianca sentiu o peito apertar com o barulho todo em volta. "Você nunca me disse isso."

"Eu sei. Achei que doía menos te deixar puxando a real desculpa, do que te dando essa."

Capítulo Quatro

A joyful New Year celebration with friends toasting and wearing party hats indoors. Photo by Jonathan Valdes via Pexels

Os fogos começaram enquanto ela ainda processava a frase, um estrondo colorido que fez a multidão gritar em coro. Bianca ficou olhando para ele, com o céu explodindo atrás da cabeça dele.

"Você tem noção de quanto tempo eu levei pra parar de esperar seu nome no celular?", ela perguntou, gritando um pouco por causa do barulho.

"Não."

"Um ano e meio."

"Bianca."

"Eu não vim aqui pra reabrir isso."

"Eu sei." Ele deu um passo mais perto, sem tocar. "Eu também não vim pra isso. Eu vim pra festa da sua prima porque ela é minha amiga há mais tempo que eu fui seu namorado. Mas o universo colocou a gente no mesmo carro, e eu não ia deixar passar sem dizer a verdade uma vez."

Os fogos continuavam, e o barulho da multidão cantando o hino nacional cobriu qualquer chance de conversa por um minuto inteiro.

Quando abaixou de novo, Bianca estava mais perto do que estava antes.

"Eu não vou te dar minha resposta hoje", ela disse.

"Eu não pedi resposta."

"Mas eu vou pensar." Ela pegou a mão dele, só por um segundo, e soltou. "Feliz ano novo, Rafael."

"Feliz ano novo, Bianca."

Ela seguiu para a festa da prima. Ele ficou parado no meio da rua fechada, com a garrafa ainda lacrada, vendo ela desaparecer entre as pessoas — e três semanas depois, quando ela finalmente mandou uma mensagem perguntando se ele queria tomar um café, ele respondeu antes de terminar de ler a pergunta inteira.

Sobre esta história

Bianca respondeu por impulso ou pensou mesmo as três semanas inteiras?

Pensou de verdade. Ligou para a prima duas vezes perguntando se ele tinha mudado, ligou para uma amiga terapeuta perguntando se merecia se abrir de novo, e escreveu a mensagem final três vezes antes de mandar a mais curta das três. A demora não foi indecisão, foi cautela — ela queria ter certeza de que estava escolhendo por vontade, não por saudade do réveillon.

O emprego que Rafael perdeu na época do término, ele conseguiu se recuperar?

Sim. Passou oito meses fazendo bicos até conseguir uma vaga de analista numa fintech, e hoje coordena uma equipe pequena. Ele conta essa parte da história com vergonha ainda, porque acha que devia ter confiado em Bianca para atravessar a fase ruim junto, em vez de terminar antes que ela visse ele "fracassando".

O motorista do aplicativo ficou sabendo de alguma coisa?

Não soube do fim da história, mas comentou no grupo de motoristas que aquela corrida foi "a mais estranha do ano", porque os dois passageiros ficaram em silêncio absoluto por oito minutos e depois desceram no meio da rua fechada sem terminar de chegar ao destino do aplicativo.

Eles voltaram a namorar oficialmente?

Voltaram, seis meses depois do café, com uma condição que os dois definiram juntos: qualquer medo que aparecesse teria que ser dito em voz alta dentro de quarenta e oito horas, nunca guardado. Chamam isso de "regra do táxi", em referência à noite em que quase deixaram passar em silêncio de novo.