A couple embracing passionately in a romantic sunset setting by the lake.
Fantasia Romântica

O Boto Que Veio à Festa

Magalhães Raul4 min de leitura5 DE SET. DE 2026

Capítulo Um

A festa de São João em Vila Ribeira acontecia às margens do rio desde antes de qualquer um lembrar, com fogueira grande demais para o tamanho da vila e uma quadrilha que começava sempre com o mesmo casal de noivos falsos escolhido pela sorte.

Iolanda estava servindo canjica quando o viu pela primeira vez: um homem alto, todo de branco, com um chapéu que não combinava com o resto da roupa, parado na beira da festa como quem observa de longe antes de decidir se entra.

"Quem é aquele?", ela perguntou para a tia Zuleide, que cuidava da barraca ao lado.

"Nunca vi na vida." Zuleide apertou os olhos. "Deve ser gente de fora, vindo pra festa."

Ele atravessou a festa direto até a barraca de Iolanda, e o jeito como andava — suave, quase deslizando — fez alguns cachorros da vila latirem sem parar até ele se afastar deles.

"Boa noite", ele disse. "Você faz a melhor canjica que eu já provei, e eu ainda nem provei."

"Como sabe, então?"

"Intuição." Ele sorriu, um sorriso largo demais, dentes muito brancos na luz da fogueira. "Meu nome é Delfim."

Capítulo Dois

Delfim ficou a noite inteira ao lado dela, ajudando a servir, dançando quadrilha sem nunca errar um passo apesar de dizer que nunca tinha visto aquela dança antes, e desapareceu antes da meia-noite sem se despedir.

"Ele foi embora sem eu perceber", disse Iolanda para a tia, no fim da festa.

"Homem bonito demais que aparece do nada numa festa de São João, dança a noite toda e some antes da meia-noite." Zuleide fez o sinal da cruz. "Minha filha, isso tem nome."

"Que nome?"

"Boto."

Iolanda riu, mas a risada saiu mais fraca do que ela pretendia. "Tia, isso é lenda de gente velha assustar menina."

"É lenda de gente velha que enterrou mãe que ficou grávida sem saber o pai." Zuleide apagou as brasas da fogueira com um balde d'água. "Se ele voltar, repara nos pés. Boto não some o chapéu."

Delfim voltou na festa seguinte, um mês depois, na comemoração de São Pedro, e de novo na festa seguinte a essa. Sempre de branco, sempre com o chapéu, sempre desaparecendo antes da meia-noite.

Iolanda começou a esperar por ele sem admitir que esperava.

Capítulo Três

A white duck leads a flock of wild ducks near a wooden bridge in Três Lagoas, Brazil. Photo by José Leandro via Pexels

Na quarta vez que se encontraram, ela finalmente perguntou.

"De onde você vem, Delfim?"

"Rio abaixo." Ele estava sentado na beira da água, os pés descalços quase tocando a correnteza. "Bem longe."

"Você mora sozinho lá?"

"Moro com meu povo."

"E por que você vem até aqui, festa após festa, sempre atrás de mim?"

Ele virou o rosto, e pela primeira vez ela viu alguma coisa nos olhos dele que não era só charme — era hesitação, quase medo.

"Porque eu nunca fiquei atrás de ninguém antes", ele disse. "E eu não sei o que fazer com isso."

Iolanda sentou ao lado dele, com cuidado de manter distância dos pés dele, sem saber bem por que fazia isso.

"Minha tia acha que você é boto."

"E o que você acha?"

"Eu acho que você tira o chapéu quando fala comigo, mas nunca tira as botas."

Delfim ficou em silêncio por um tempo longo, olhando o rio escurecer.

"Se eu contar a verdade, você vai fugir."

"Testa."

Capítulo Quatro

A vibrant Amazon River dolphin emerges from the water, showcasing its unique pink hue and smooth movement. Photo by Jacob Willoughby via Pexels

"Eu sou boto, sim", ele disse, finalmente, a voz baixa. "Mas não vim pra festa pra levar você embora, como as lendas dizem. Eu vim porque, há três luas, eu vi você sozinha na beira do rio, chorando por um homem que te deixou sem explicação, e alguma coisa em mim quis ficar."

Iolanda ficou parada, sentindo o coração bater rápido demais.

"Você sabe disso? Do Vicente?"

"Eu vi. E vi que você não merecia ficar sozinha por causa de um homem que não teve coragem de te enfrentar."

"E o que você quer de mim, então? Se não é me levar embora."

Ele finalmente tirou a bota do pé direito, devagar, e mostrou: a pele ali era diferente, com um brilho acinzentado que não pertencia a nenhum pé humano.

"Eu quero saber se existe um jeito de eu ficar", ele disse. "De verdade. Sem lenda, sem fuga antes da meia-noite. Eu nunca tentei, porque nunca quis o suficiente pra tentar."

Iolanda olhou para o pé dele, depois para o rosto, e não sentiu o medo que devia sentir.

"Existe um jeito?"

"Existe uma história antiga sobre botos que escolhem ficar. Ninguém nunca confirmou se é verdade, porque ninguém nunca tentou o suficiente."

Capítulo Cinco

Delfim ficou.

Não desapareceu antes da meia-noite na festa seguinte, nem na outra. A vila inteira comentou, alguns com medo, a maioria com curiosidade, e Zuleide observou de longe por meses antes de finalmente aceitar servir canjica ao lado dele sem fazer o sinal da cruz.

Ele nunca explicou totalmente o que aconteceu, só disse que escolher ficar tinha um preço que ele pagou em silêncio, sem detalhes, e que valeu cada parte.

No São João seguinte, foi ele quem serviu a canjica pela primeira vez, enquanto Iolanda dançava quadrilha com as crianças da vila, e quando a meia-noite chegou e passou sem ele desaparecer, ela atravessou a festa e pegou a mão dele na frente de todo mundo.

"Você ficou", ela disse.

"Eu fico", ele respondeu. "Não é mais promessa de uma noite. É escolha de todas."

Sobre esta história

Qual foi o preço que Delfim pagou para conseguir ficar?

Ele nunca contou em detalhes, mas Iolanda percebeu, com o tempo, que ele nunca mais conseguiu voltar ao rio na forma de boto — a transformação, que antes acontecia livremente, ficou permanentemente selada. Ele trocou a possibilidade de retorno pela possibilidade de permanência, e nunca demonstrou arrependimento por isso, embora às vezes fique olhando a água por tempo longo demais.

A tia Zuleide acabou aceitando Delfim de verdade?

Aceitou, depois que ele salvou o filho mais novo dela de um afogamento na cheia do rio, nadando de um jeito que nenhum humano conseguiria. Depois disso, Zuleide parou de fazer o sinal da cruz perto dele e passou a chamá-lo de sobrinho, o que na vila é reconhecido como a mais alta forma de aprovação familiar.

O Vicente, o ex-namorado de Iolanda, reapareceu depois?

Reapareceu uma vez, um ano depois, tentando reatar. Encontrou Iolanda e Delfim juntos na feira e foi embora sem dizer nada, e ninguém na vila voltou a vê-lo desde então. Iolanda diz que sentiu, naquele momento, o fim definitivo de uma história que já tinha terminado havia muito tempo dentro dela.

Existem outros botos que tentaram ficar depois de Delfim?

A vila conta que, dois anos depois, uma moça de outra cidade rio abaixo apareceu contando história parecida, de um rapaz de branco que ficou depois de uma festa junina. Ninguém confirmou se era verdade ou lenda nova nascendo em cima da de Delfim, mas ele, quando perguntado, só sorriu e disse que não era o único capaz de escolher.