A romantic moment captured in a dark library with a couple kissing, surrounded by illuminated books and photos.
Dark Romance

Protocolo Sete

Aviso de conteúdo sensívelMagalhães Raul8 min de leitura24 DE AGO. DE 2026

Capítulo Um

O homem que ela devia manter vivo estava fazendo café descalço na cozinha de uma casa que não era dele, às cinco e vinte da manhã, na frente de uma janela sem cortina.

"Sai da janela", disse Nadja.

Caio olhou para ela por cima do ombro. "Bom dia para você também."

"Sai da janela, doutor."

"A rua está vazia."

"A rua está vazia porque são cinco e vinte." Ela atravessou a cozinha, fechou a persiana com um puxão e ficou entre ele e o vidro. "Existe uma coisa chamada tiro de precisão a duzentos metros e ela não pede licença."

Ele desligou a chaleira. "Você quer café?"

"Não bebo em serviço."

"Isso é bebida?"

"É líquido quente perto da minha arma."

Caio Bettencourt tinha trinta e oito anos, um mestrado em administração pública e uma cara de quem não dormia direito havia sete semanas. Era auditor de contas do estado, e em março tinha entregado à Controladoria uma planilha de trinta e duas páginas sobre um contrato de oxigênio hospitalar com sobrepreço de quatrocentos e onze por cento.

Em abril furaram os quatro pneus do carro dele. Em maio, alguém entrou no apartamento e não levou nada, só deixou as gavetas abertas. Em junho a empresa dele contratou a Vector Proteção Executiva, e a Vector mandou Nadja Espíndola.

"Regras", disse ela, no primeiro dia. "Eu entro primeiro em todo cômodo. Você não posta nada, nem foto de gato. Você não avisa ninguém para onde vamos, nem a sua mãe. Rota nunca se repete. Se eu disser abaixa, você abaixa antes de perguntar."

"E se eu quiser sair para caminhar?"

"Você me diz com uma hora de antecedência e a gente vai num lugar que eu escolher."

"Isso é prisão."

"Isso é o protocolo sete", disse ela. "Prisão é diferente, doutor. Na prisão você não escolhe o guarda."

Capítulo Dois

A casa de apoio ficava em Nova Lima, num condomínio de vinte e duas unidades, com portaria fraca e mata dos fundos, o que Nadja odiava e relatou por escrito.

Levaram trinta e um dias ali.

Trinta e um dias é muito tempo para duas pessoas em quatro cômodos. Ela aprendeu que ele cantarolava sem perceber quando lavava louça, sempre a mesma música, sempre errando a mesma parte. Ele aprendeu que ela dormia quatro horas em dois blocos e que fazia flexão no corredor às três da manhã quando não conseguia dormir o segundo bloco.

"Quantas você faz?", perguntou ele, da porta do quarto, numa madrugada.

"Volta a dormir."

"Não consigo."

"Então conta comigo. Sessenta e três."

Ele sentou no chão do corredor, de costas para a parede, e ficou ali enquanto ela terminava.

"Por que você faz isso de madrugada?"

"Porque de madrugada é quando eu penso demais."

"Pensa em quê?"

Ela terminou a série, sentou no chão de frente para ele, com as costas na parede oposta, e o corredor era estreito o suficiente para os joelhos dos dois quase se tocarem.

"Em dois mil e dezenove", disse ela. "Eu estava no batalhão de choque. Teve uma operação numa vila em Contagem, uma coisa mal planejada por gente que nunca tinha entrado numa vila. Morreu um menino de catorze anos que estava indo para a escola."

"Você atirou?"

"Não."

"Então."

"Então nada." Ela apoiou os antebraços nos joelhos. "Eu estava na equipe que assinou o boletim. Assinei um documento dizendo que houve confronto. Não houve confronto, doutor. Eu tinha vinte e nove anos e assinei porque todo mundo assinou."

Caio ficou muito quieto.

"E depois?"

"Depois eu pedi baixa em vinte e um, e desde então eu trabalho para empresa privada protegendo gente que denuncia coisa." Ela olhou para ele. "Você deve achar que isso é redenção."

"Eu acho que é um jeito caro de dormir mal."

Ela riu. Foi curto, e ele reparou que era a primeira vez.

Capítulo Três

Wide view of a landscape with a clear blue sky, featuring a no dumping sign in a natural setting. Photo by joao Guerreiro via Pexels

Na sexta semana ele pediu uma coisa impossível: ir ao enterro do orientador dele, em Belo Horizonte, num cemitério aberto, com data e hora publicadas no jornal.

"Não."

"Ele me ensinou tudo o que eu sei."

"E vão te matar na saída do velório, o que seria uma homenagem esquisita."

"Nadja."

Foi a primeira vez que ele usou o nome dela sem o sobrenome.

Ela ficou olhando o mapa aberto no tablet por dois minutos inteiros.

"Você entra depois de todo mundo e sai antes do caixão descer", disse ela. "Nada de terno preto, você vai de camisa clara igual aos outros. Fica na fileira do meio, nunca na frente. E se eu pegar no seu braço, você anda comigo e não olha para trás."

Deu certo, e foi na volta que aconteceu a outra coisa.

Ele chorou no carro, na Fernão Dias, no acostamento, com as duas mãos no volante que não era dele porque quem dirigia era ela. Chorou de um jeito feio e sem pedido de desculpa, e ela deixou.

Depois secou o rosto com a manga e disse, olhando para frente:

"Eu não vou aguentar mais três meses disso."

"Vai."

"Como você sabe?"

"Porque eu já vi gente desistir e eu sei a cara", disse ela. "A cara é outra. A sua é de raiva ainda."

Ele virou a cabeça no banco.

"Você tem uma opinião muito exata sobre a minha cara."

"É o meu trabalho olhar para você."

"É."

Ficaram os dois em silêncio no acostamento, com caminhão passando e balançando o carro.

"Isso não pode acontecer", disse ela.

"Eu sei."

"Está no contrato. Está no manual. Está em oito anos do que eu sou."

"Eu sei, Nadja."

Ela ligou o carro.

Aconteceu em julho, numa terça-feira, depois de um dia em que não aconteceu nada e por isso mesmo foi insuportável. Ela estava conferindo a tranca dos fundos e ele estava atrás dela na cozinha, e quando ela virou ele não saiu do caminho.

"Se eu encostar em você, eu perco o emprego", disse ela.

"Então não encosta."

"Doutor."

"Caio."

"Caio." Ela pôs a mão espalmada no peito dele, e ele não se mexeu. "Eu preciso ouvir você dizer que sabe o que está fazendo, porque eu estou armada dentro da sua casa e essa conta nunca fecha bonita."

"Eu sei o que estou fazendo." Ele pôs a mão em cima da dela, sem puxar. "E se você disser não, amanhã eu faço café e a gente não fala mais nisso, e eu continuo te obedecendo em tudo, porque você é a única razão de eu estar vivo."

Ela levou dois segundos.

Depois puxou a camisa dele pela gola e apagou a luz da cozinha com o cotovelo, o que virou piada entre os dois durante muito tempo.

Capítulo Quatro

Bright lifeguard tower and umbrella on a tropical beach with city skyline. Photo by Danilo Marcelino via Pexels

Chegaram às três e quarenta da manhã de dez de agosto, pelos fundos, pela mata que Nadja tinha relatado por escrito em junho.

Eram três. O primeiro cortou a tela do quintal. Nadja acordou com o cachorro do vizinho, que era o único sistema de alarme confiável daquele condomínio, e teve tempo de fazer duas coisas: empurrar Caio para dentro do banheiro do corredor, que era o único cômodo sem janela, e apagar o disjuntor geral.

O tiroteio durou dezenove segundos.

Ela levou um tiro de raspão na coxa esquerda e um estilhaço de azulejo no rosto, e acertou dois dos três. O terceiro correu para a mata e foi preso quatro dias depois numa rodoviária em Betim.

Sentada no chão do corredor, com a perna amarrada com um cinto e a arma ainda na mão, ela olhou o celular funcional que caiu do bolso do primeiro homem.

E era isso que não fechava.

"Ninguém sabia deste endereço", disse ela, com os dentes trancados. "Ninguém. Nem a sua mãe, nem a Controladoria, nem o seu advogado."

Caio estava ajoelhado ao lado dela, tremendo, apertando a toalha na perna dela.

"A sua empresa sabia."

"A minha empresa sabia."

O relatório de rota semanal ia para uma pessoa só na Vector, o coordenador operacional Wagner Prado, que tinha sido sargento dela em dois mil e dezessete, que a indicou para a vaga em vinte e um, e que era a única pessoa naquele estado que Nadja teria chamado de amigo.

Ela ligou para ele às cinco da manhã, do hospital, com a perna costurada e a voz muito calma.

"Wagner."

"Espíndola, graças a Deus, eu soube agora, você está..."

"Você mandou o quê para eles? A planta ou só o endereço?"

O silêncio do outro lado durou tempo demais.

"Você não sabe o tamanho disso", disse ele, enfim. "Menina, você não sabe quem está nesse contrato. Eu tinha três meses para pagar o tratamento da Vânia. Três meses."

"E eu tinha um homem dormindo naquela casa."

"Nadja."

"Eu já mandei tudo para a Polícia Federal", disse ela. "Faz vinte minutos. Foi a primeira coisa que eu fiz."

Capítulo Cinco

O contrato do oxigênio virou uma operação com nome de pássaro em novembro. Onze indiciados, dois secretários de estado, um dono de distribuidora e um coordenador operacional de empresa de segurança que fez delação premiada e implicou mais três.

Caio depôs quatro vezes. Ganhou um prêmio nacional de integridade em maio que ele achou constrangedor, e um convite para dar aula numa fundação de administração pública que ele aceitou na hora.

Nadja não voltou a trabalhar armada.

Ficou nove meses em fisioterapia, com uma coxa que dói quando chove, e abriu com outras duas mulheres uma consultoria de análise de risco: elas olham a casa, olham a rota, escrevem o relatório e vão embora. Ninguém dorme no corredor de ninguém.

Numa sexta-feira de setembro, ela chegou em casa e ele estava fazendo café descalço na cozinha, de frente para a janela.

Ela parou na porta e não disse nada por um tempo.

"Você vai me mandar sair da janela", disse ele, sem virar.

"Não."

"Não?"

"Não." Ela largou a bolsa na cadeira. "Essa janela dá para um muro de três metros e uma parede cega. Eu conferi no dia em que a gente alugou."

Caio virou com as duas canecas na mão.

"Você conferiu a linha de tiro do nosso apartamento."

"Eu confiro a linha de tiro de tudo, amor. Isso não sai."

Ele entregou a caneca. Ela bebeu, porque não estava em serviço.

Sobre esta história

Como exatamente Wagner passou o endereço sem deixar rastro?

Ele não passou por escrito. Fotografou o relatório de rota semanal com um aparelho antigo e entregou a fotografia em mãos, num estacionamento de supermercado, para um intermediário. O rastro que a Federal usou não foi o endereço, foi a linha do celular funcional caído na cozinha, que tinha ligado duas vezes para um número que Wagner tinha na agenda pessoal.

A esposa do Wagner sabia de onde vinha o dinheiro do tratamento?

Não. Vânia descobriu pela televisão, num domingo, e passou seis dias sem falar com ele. Continuou o tratamento porque parar não devolveria nada a ninguém. Nadja mandou uma mensagem para ela em dezembro, com quatro linhas, e Vânia respondeu com duas. As duas nunca mais se falaram.

Caio ficou com escolta depois da operação?

Ficou dois anos no programa estadual de proteção a testemunhas, com escolta de dois agentes em rodízio, e reclamou dos dois por dois anos, principalmente do que ouvia rádio alto. A escolta saiu em vinte e sete, depois que a denúncia virou ação penal e a informação deixou de valer alguma coisa para quem queria matá-lo.

Nadja respondeu por alguma coisa por causa do relacionamento com o protegido?

Foi desligada por justa causa pela Vector em agosto, dois dias depois do ataque, com base na cláusula de conduta. Ela não contestou. Em fevereiro, com a empresa sob investigação, o advogado dela sugeriu reverter na justiça do trabalho e ela recusou, porque no mérito a empresa estava certa e ela sabia.

Ela algum dia falou publicamente sobre o boletim que assinou em dois mil e dezenove?

Falou em vinte e oito, num depoimento a uma comissão que reabriu quatro casos daquele ano. Não havia mais prazo para punição administrativa e ela não ganhou nada com isso. A mãe do menino de catorze anos estava na sala e não quis apertar a mão dela no fim, o que Nadja considera a resposta mais honesta que já recebeu na vida.

Esta história contém temas sensíveis (dark romance). Personagens e situações são fictícios; qualquer dinâmica retratada não é uma recomendação para a vida real.